fui a um show chamado palavras. muito mais à procura do silêncio do que de outra coisa. por ser um recital show poético sabia que iria encontrar em algum momento o silêncio que encontrei quando cheguei ao teatro. na penumbra, vozes ansiosas esperavam o início do espetáculo. um vídeo foi exibido logo na abertura, como se fosse um prólogo. a questão central, como não poderia deixar de ser, era exatamente a palavra. especulações em torno da palavra, poderia ser o título do áudio-visual.
o vídeo terminou e a luz desceu no lado esquerdo do palco, onde uma banda já estava à espera dos olhares para prolongar ainda mais o prólogo. o microfone hesitou, como se o silêncio dissesse: deixe-me falar também... a música foi interrompida e alguém apertou (ou puxou) alguma coisa no microfone, fazendo-o funcionar. nunca vi um prólogo tão prolongado...
a estrela principal veio de traz do palco, com suas lanterninhas percorrendo os rostos de silêncio da platéia. a noite sempre pede uma palavra recitada, um gesto, uma embriaguez qualquer. o poeta saiu distribuindo doses cavalares de palavras, às vezes muito mais cuspidas do que faladas. muito mais encenadas do que inteligíveis. mas, de qualquer maneira, audíveis à aurículas mais insensíveis. quem, ao chegar em casa, não cuspiu, comeu...
e ficou entalado com tanta verborragia, muito mais de um poeta barroco do que de um discípulo do concretismo. se teve tanto gesto encenado, por que então não teve um poema gestual? à revelia disto, sobraram diálogos forçados. alguém que grita de traz, da frente, do lado... tentativas infrutíferas de não ir para lugar algum.
e fomos. as lanterninhas passearam pela platéia o tempo todo e terminaram na cabeça do líder peformático da noite. mas foi tarde demais: o silêncio já tinha saído pela tangente e nem mesmo escutou os aplausos.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
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