quarta-feira, 30 de julho de 2008

notas sobre o meu estado atual de dispersão

ainda estou disperso. livros espalhados na mesa, garrafa de água para amenizar a tosse seca, caneta, celular, discos, apostilas que não conseguem progredir porque eu (tenho de repetir) ainda estou disperso.

cheguei com fôlego, esbanjando saúde apesar de não ter saúde para esbanjar, decidido a me dedicar mais a algumas coisas e me desprender de outras. mas o dia-a-dia vai se encarregando de colocar os pingos nos is e daqui a pouco estarei na mesma. conformado e disperso.

procurando uma outra casa pra morar. mais próximo de tudo que hoje me parece distante. só não parei pra pensar ainda que o contrário também é verdadeiro: ficarei mais longe de tudo que me parece próximo atualmente. seria tudo mais simples se eu me conformasse nessa de ficar mais um tempo por aqui, mas não dá. já pensei demais para agora recuar.

pensei muito em iniciar a leitura de cem anos de solidão. hoje recebi o livro de uma colega com um atraso de três anos. ainda teve quem tentasse me atravessar, mas eu logo disse que estava interessado em ler e pronto. o livro agora está sobre a mesa, em meio à garrafa de água para amenizar a tosse seca, a caneta, o celular, os discos, as apostilas que não conseguem progredir porque eu (tenho de repetir, de novo...) ainda estou disperso.

e minha dispersão só vai passar (eu sinto) quando eu fizer alguma coisa com ela: quem sabe se eu resolvesse abrir o livro e iniciar a leitura desta obra-prima da literatura mundial, três anos depois...

terça-feira, 29 de julho de 2008

reticências para um ser reticente...

... já estava cansado de ir e vir pela mesma rua, procurando inutilmente um número que nunca encontraria inscrito na parede de uma das casas/comércio dali: 1007. toda pessoa que eu encotrava na rua com ares de entregador ou morador antigo era uma esperança...

... eu aéreo no encontro. entrei num lugar escrito XEROX que eu até agora não sei se era um armarinho, uma loja ou uma copiadora. o que eu sei é que um computador sempre estava disponível para quem quisesesse acessar com intenção de gastar 50 centavos por cada folha impressa. eu entrava no lugar, sentava no banco que ficava em frente ao computador, observava a mulher de olhar cansado atrás do balcão e pedia um pen drive prometendo imprimir algumas folhas. depois de percorrer as mensagens que mais me interessavam, eu então selecionava a página e entregava à mulher que abriu um sorriso tímido quando descobriu que eu sou baiano. queria ter conversado mais com ela, mas...

... marquei para quinta-feira. felizmente não fechei horário. da mensagem que recebi em poucos minutos duas combinações de números eram fortes: 12 e 1007. 12h ou meio-dia se referia ao horário em que ela chegava à sede do site. 1007 era o número do lugar, que eu nunca iria encontrar. até o momento em que resolvi ir em busca de uma casa de informática, de preferência tipo aquela em que eu tinha me servido para entrar em contato com a pessoa que agora eu não conseguia encontrar. já numa outra rua entrei numa lan house decidido a resolver logo a pendenga. a tarde já estava caindo e eu teria de voltar logo para a universidade. quanto você vai utilizar?, perguntou-me a recepcionista. uns 20 minutos, respondi. cada dez minutos é um real. como assim? será que eu ouvi bem? quer dizer que estou na lan house mais cara do meu pobre país? o desespero é sempre muito desesperador. sentei em frente ao computador decidido a resolver logo tudo e finalmente encontrar o tal endereço. tive a ligeira impressão que só eu e a recepcionista éramos brasileiros ali. ainda ouvi um som longínquo de conversa alemã. mas logo me detive na mensagem. o computador era lento, pelo menos pelo preço, e meu dinheiro era (é) pouco. tudo isto me fez ir direto ao ponto. vi que ela estava online e parti logo para o bombardeio de mensagens intantâneas. não tive resposta. então abri a mensagem para ler novamente e finalmente vi que o número correto era 45. o 1007 era o número da sala. já!, disse a recepcionista. não tinha nem dado 10 minutos. quanto foi?, perguntei. 1 real, respondeu. entreguei e saí quase correndo. rapidamente encontrei o endereço e subi dez andares para finalmente conhecer a sede do site...

... é, você é sempre muito reticente, me disse a pessoa que eu tanto procurava. adorei a frase, sobretudo pelo caráter instantâneo e espontâneo. eu tinha acabado de conhecer aquela que eu só sabia existir por meio de textos e mensagens espalhados pelo ciberespaço. sim, mas pergunte aí, eu adoro este feedback, me disse ela. e eu alí sem saber o que perguntar. além de reticente, tímido. a conversa foi se arrastando, como a noite, com algumas frases do tipo: esta vista é inspiradora. o thiago saiu agorinha. conta aí alguma novidade...

... e eu preocupado em chegar cedo para uma atividade que nem aconteceu...

voltei. mais reticente do que nunca.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

o lavrador

volto hoje para informar que partirei sem previsão de voltar, pelo menos para esta página. tantos dias que não escrevo aqui... que só as reticências mesmo para rimarem com existências numa hora desta. está difícil carregar o fardo desta existência maluca. fico pasmo com as loucuras que faço com meu tempo, meu precioso tempo, que corre, sem pressa, de chegar...

não gostaria de encher estas páginas com versos. respeito profundamente a tradição poética. será por isso que não me aventuro tanto pelas veredas da poesia? creio que não... escrever não é tão racional quanto se imagina. às vezes é impulso, simplesmente. você toca e, num instante, um monte de telhados preenchem a página em branco.

mas não foi para fazer telhados que resolvi escrever esta noite. vim aqui transcrever uns versos intimamente relacionados ao nome deste blog: sobre o peso da existência I: o lavrador. dedico este samba de uma nota só a jorge de lima e seu poema do nadador...

meu coração é pesado.
como um fardo de lenha no ombro de um lavrador...
e, nas chegadas, não há como descarregar o peso da viagem sobre o chão da varanda
e, nas auroras, não dá tempo de recolher os galhos mais grossos e levá-los para o terreiro
e, meio-dia, faz-se tudo que é vida em mim um imenso borralho
e, nos alvoreceres, falta vento para acender os ramos com o gás do candeeiro
e, nas noites de frio, impossível se aquecer na fogueira do fardo
e nas madrugadas de medo, cadê minha paz em volta da luz?
me abraço ao travesseiro até arder as pontas dos dedos calejados
e, preso em mim mesmo, me sufoco nas cinzas do fardo...
eu também lavro: a dor
lavra, lavrador.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

se todos os dias fossem iguais a você....

ontem cheguei em casa perto de meia-noite depois de ter tentado fazer algo de diferente nesta noite fria. acendi a luz da sala, liguei o computador, vasculhei uns espaços virtuais, pensei em tomar banho (a vontade passou tão rápido...) e antes de escrever algo neste blog (já com a janela aberta e tudo mais) resolvi entrar no quarto.

a cama toda arreganhada era um convite. deitei de costas, sem me preocupar com despertador, afinal de contas, eu ainda iria voltar para a frente desta tela quadrada a fim de escrever qualquer coisa que o momento pedisse. acordei hoje de manhã assustado com as horas, já que tinha um compromisso às 9, e saí de casa sem comer nada. ainda tive de esperar quase uma hora para a reunião começar.

são estas coisas que às vezes me fazem questionar o tempo. tinha uma consulta marcada para hoje à tarde, de tal maneira que desmarquei a edição de um vídeo. minha aula começa às 14h. a idéia era que eu chegasse neste horário para ter envergadura moral de argumentar minha saída para ir ao médico sem levar falta. na reunião, recebi um telefonema da recepcionista do hospital, dizendo que a consulta tinha sido remanejada para sábado de manhã. melhor, pensei. só assim daria para eu assistir aula e, ao invés de argumentar que ía ao médico, tentaria convencer a professora da importância da edição.

a reunião se arrastou até perto de uma e meia da tarde. ainda me distrai um pouco com a internet. saí de casa duas e meia e cheguei à aula perto de quatro horas. na sala, 4 colegas conversavam. hoje não vai ter aula, uma delas me disse. fui à ilha de edição, mesmo já tendo desmarcado tal compromisso. o computador estava fazendo umas gravações, que se arrastariam por um bom tempo. faz o seguinte: a gente começa a edição amanhã, certo?, disse o editor me acenando com o polegar apontado pra cima. por via das dúvidas, acenei também. afinal, amanhã tudo pode acontecer.

fiquei a tarde inteira sem fazer nada que fizesse valer a continuação deste relato. agora eu só quero que o despertador me acorde amanhã...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

ao som de nara leão...

hoje não vou dormir em casa. o que, para mim, não é lá grande novidade. não sou de maneira alguma apegado a minha cama, minha mesa, meu lençol, minha rede, meus pesadelos... como amanhã tenho compromisso às 9 por aqui perto, resolvi ficar logo. mas dois amigos tiveram de insistir um pouco para eu me convencer de que estava fazendo algo sensato.

fomos comer pastéis, beber suco, cerveja, refrigerante, conversar sem pressa sobre assuntos banais: curso de inglês, bem que no Brasil poderíamos falar espanhol, crises sentimentais alheios e tudo que passava na janela de nossa consciência durante o percurso. voltamos ao sabor do vento frio que sopra nestes dias raros.

antes de dormir, passei por aqui para abri minha caixa de entrada. agora me lembrei que falta eu enviar uma mensagem lembrando a galera da gravação de um programa de rádio amanhã. mas faço isto daqui a pouco, por enquanto prefiro dizer que não gosto de deitar deixando mensagens à procura de respostas. tenho me agoniado com estas coisas que as pessoas a muito tempo se acostumaram a se agoniar.

hoje quero dormir mais tranquilo. fui deitar na rede depois das 4h da manhã e acordei assustado às 8 e meia. todo atrasado para um compromisso. entrei no chuveiro com medo de tomar um choque térmico, me vesti com as primeiras roupas que encontrei, não tomei café e ainda saí de casa telefonando para informar que chegaria no mínimo 10 minutos atrasado. não sei como, mas ainda consegui chegar alguns segundos cedo.

são as coisas da vida. os dias teimam em se fechar da maneira mais harmoniosa possível e isto é muito bom, afinal de contas, daqui a pouco quero estar na tranqulidade dos sonhos frutrados ontem, que eu só me lembro porque antes de escrever este texto li o título do que escrevi ontem. e meu peito não pára de coçar...

domingo, 6 de julho de 2008

uma tentativa frustrada de dormir sonhando...

fui correr ou telefonar? os dois. ou melhor, fui correr para telefonar. mas não desci correndo. só apressei o passo na hora de atravessar a rua. rua escura esta que passa na frente deste condomínio de um prédio só. joguei o lixo no vaso vazio e segui.

momentos antes, fiz alguns exercícios básicos no quarto, só para aquecer os músculos. já estava cansado de ficar sentado e deitado. a vontade de correr veio junto com a vontade de tomar um banho, o primeiro do dia, e de telefonar para uma velha amiga.

adentrei o parque quase vazio, aqueci o corpo num ventinho frio e raro e saí correndo com o celular/cronômetro na mão. dei a primeira volta no parque colocando o coração pela boca, apesar do ritmo lento de corrida, e cheguei ao ponto exato em que saí aos 6 minutos e 20 e poucos segundo. continuei correndo. com o tempo, fui me adaptando ao ritmo e já conseguia respirar com mais tranquilidade. na segunda volta, o cronômetro marcou 13 minutos. percebi que o suor secava ao sabor do vento frio e me dava um ar gélido. mas decidi fechar os 20 minutos de corrida. tempo marcado pelo cronômetro no momento em que cheguei ao ponto de onde sair três voltas depois.

na última volta, fui caminhando. só assim para recuperar totalmente o fôlego e finalmente telefonar para a velha amiga. quando cheguei ao orelhão já estava decido a telefonar antes para uma entrevistada, no intuito de confirmar a entrevista de amanhã. terminei telefonando para o filho dela, um cara que faria um show dia 11 (ele me disse que mudou para o dia 15), a fim de que ele enviasse o release do show para mim. fiz os telefonemas numa rapidez muito próxima de uma ansiedade. tanto tempo que eu não falo com essa amiga...

boa noite, disse eu, com um sotaque bem característico. boa noite, respondeu de lá minha amiga. é juliana?, perguntei. peraí, respondeu. ou ela foi falar com alguém ou foi fechar a porta da casa, pensei. oi luís!, voltou. sorri. oi juliana, estava aqui correndo e resolvi parar, disse meio sem jeito, já pensando num gancho para iniciar a conversa. mas ela foi logo ao ponto. dá pra você ligar outro horário, é que estou de saída. e eu murchei, como uma bola de soprar murcha quando escapa de nossos dedos no momento exato em que estamos terminando de enchê-la. que horas eu ligo?, perguntei. hum, hoje eu não vou voltar pra casa..., disse ela. então eu ligo outro dia, disse todo desanimado. tá certo, beleza então, tchau..., ela disse, com a mesma entonação de uma porta fechando, aos poucos, ao sopro, de um vento, frio...

e eu nem perguntei se estava tudo bem com ela e ela nem perguntou se podia mesmo desligar o telefone e adiar uma conversa de meses. nem me lembro a última vez que conversei com ela. e duvido muito que ela se lembre. antes conversávamos todos os dias na flor da manhã. eu dormia pra sonhar com ela e acordava para admirá-la, no passo, no riso, nos óculos, na língua molhando os lábios, no cheiro, na luz, no silêncio e no vai-e-vem dos recadinhos no meio da aula.

agora não sei quando tudo convergirá para um telefonema. e duvido muito que ela saiba. entre nós, fica o silêncio matutino de sempre soprando ventos frios.

sábado, 5 de julho de 2008

eu e as muriçocas

ontem não dormir em casa. verdade seja dita: esta noite praticamente não dormir. fui alvejado por muriçocas sedentas de sangue. não adiantava se cobrir, se remexer, levantar... elas estavam impávidas em todas as partes. estas muriçocas que agora me circulam nem me mobilizam, dada a agressão que eu sofri nesta madrugada.

de manhã, ainda fui acordado cedo por uma pessoa que dormiu de mosqueteiro. eu não merecia isto. seria o caso até de dispensar o café para ficar um pouco mais na cama, aproveitando o sono da manhã, quando as muriçocas já estão acomodadas e satisfeitas de vararem a madrugada sugando o sangue alheio. muriçocas são como morcegos.

até hoje não entendi direito por que morcegos e muriçocas não atuam durante o dia. especulo que, como são seres vivos que se acham reis e rainhas da cocada preta, não gostam de receber a luz da estrela suprema. preferem aproveitar a escuridão do satélite. eu quero mais é que eles se danem...

desde que me reconheço como sou, tenho de lidar com muriçocas. aprendi a ter paciência, a ser compreensivo, a matar, a coçar, a balançar as pernas freneticamente e tantas outras coisas por conta de meua anos de convivência com tais mosquitos. por sinal, tem gente que confunde muriçoca com mosquito. os dicionários adoram inverter, como se fosse a mesma coisa. para mim há uma diferença bem básica: muriçoca quer sangue, mosquito simplesmente incomodar.

mosquito é pirracento. muriçoca só pirraça porque é inevitável. mas na verdade elas querem mesmo é o sangue. é sugar o sangue até estourarem na palma de uma mão assassina. aprendi técnicas de tortura matando muriçocas. primeiro puxa as patas, de uma em uma, e aí vai deixando sem possibilidade de voar. depois larga no chão mesmo, para morrer na sola do pé ou de algum calçado.

já vi que veneno é sempre paliativo. no outro dia, outras virão. cada vez mais decididas, fortalecidas, sedentas. entram sem permissão, encostam sem carinho, invadem e depois abandonam, desprendidas de tudo. como se, no final, tudo realmente se resolvesse.

aprendi a pensar pro-fun-da-men-te depois que conheci as muriçocas.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

o dia em que fui atropelado por uma moto...

agora, tentando me lembrar as cenas da moto entrando na lateral da bicicleta e me jogando num lugar incerto, só consigo ouvir um grito seco misturado com o som estridente de ferros se encontrando. foi o grito da morte no meio da rua.

eu saí de casa sem pressa. pouco depois das duas horas da tarde. a idéia era que três horas eu tocasse a campainha da casa de minha professora. uma colega quase clamou minha presença neste encontro. antes de abri o portão, certifiquei-me de que a câmera fotográfica estava em minha bolsa.

é que no meio do caminho há uma ponte. há uma ponte no meio do caminho. e pessoas trabalhando na duplicação desta ponte. e eu sou meio fissurado em fotografar estas coisas assim que as pessoas nem costumam olhar: homens trabalhando, um buraco no banheiro da barca, alguém dormindo na calçada depois do almoço e por aí vai.

e por ali eu fui indo. subi as escadas de concreto carregando a bicicleta e o peso de um sol acolhedor. logo vi uma cena que daria uma boa fotografia. mas preferi seguir adiante. tinha algumas pessoas pintando a balaustrada que dificulta (mas nem tanto assim) as pessoas que desejam se jogar da ponte. saquei minha máquina e tirei umas fotos. segui...

na altura do arco, dei um tempo. trabalhadores pintavam lá em cima. fiquei fotografando até chegar à conclusão de que poderia ser indelicado com minha colega e minha professora. então peguei a carona de um bicicleteiro. ele foi abrindo caminhos. para não carregar a bicicleta, resolvi só descer na rampa.

com pouco tempo estava solto na rua, atravessando na faixa a primeira sinaleira. como se fosse um pedestre de bicicleta. passei rápido por um congestionamento provocado pela ausência de lugar para estacionar na rua. e segui pedalando até chegar na encruzilhada, onde cinco sinais diferentes tentam ordenar o trânsito.

não sei ao certo se eu cheguei a parar minha bicicleta. mas observei que um sinal do outro lado da faixa de motoristas estava fechado. o mais próximo da faixa. tanto assim que uma pequena fila de carros se posicionava à espera da luz verde, que acesa logo ao lado (são duas faixas diferentes num mesmo lado) apontava trinta e poucos segundos. foi a última coisa que vi quando pedalei para o terno (e eterno) encontro com uma moto, que vinha reta e decidida a seguir pela avenida.

nem sei onde o lado esquerdo do meu rosto bateu. se foi na moto, no capacete, no chão, na bicicleta. não sei também se eu cheguei a cair de se esparramar no chão como um pacote de arroz. acho que sim. mas devo ter levantado tão rápido que nem percebi. só vi o rapaz da moto contrariado com minha displicência e levantando do asfalto para não atrapalhar o tráfego. pegou a moto e se encostou no meio fio. peguei minha bicicleta e fiquei indeciso, se ía embora de qualquer jeito ou se me encostava ao meio fio para tentar um diálogo com o rapaz. optei meio trêmulo de vergonha pela segunda opção.

em volta, todo mundo estava preocupado em saber se eu estava bem. sim, tentei explicar. como assim? tentaram me dizer. você não teve nada? quem vê de fora tem outra perspectiva. algumas pessoas acharam que foi um acidente digno de samu. mas eu levantei tão determinado a resolver a pendenga logo e me safar daquela situação constrangedora que só fizeram me mostrar um espelho. venha vê seu rosto, parece que tem uma veia próximo a seu olho...

encostei a bicicleta no meio fio e entrei numa loja de bijoteria, suponho. só amanhã para saber o que se vende lá. realmente, tem um hematoma crescendo em meu rosto. vá para a emergência do semec, alguém disse. fiquei surpreso e receoso ao mesmo tempo. já tive coisa pior e me tratei em casa mesmo, com gelo e gelou. dei meu telefone ao rapaz, que até agora não sei o nome. mais tarde ele me encontraria na universidade já portando o orçamento do conserto da moto: 121 reais e eu daria a ele, para adiantar, os 37 reais que residiam em minha bolsa.

fui pedalando para o semec. o sol queimando meu rosto só fazia aumentar minha angústia, que misturada à dor dava uma vontade de voltar pra casa. aqui nós não tiramos raio x, você tem de ir para a pró-matre ou para a santa clara, mas é melhor a pró-matre. lá fui eu para a pró-matre. já cheguei pedindo um raio x. o médico imediatamente atendeu meu pedido e me encaminhou. passei por umas cinco mãos (até injeção tomei) antes de retornar à cadeira onde o médico atende todos os pacientes com suas letras de médico. você não teve nenhuma fratura. só um trauma mesmo.

realmente, estou traumatizado com motos e luzes verdes.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

olhos inquietos

já estou cansado de iniciar minha escrita neste blog justificando a ausência de texto no dia anterior. mas ontem realmente cheguei em casa com uma dor funda na testa, que eu não sabia se era fome ou óculos. fiz um cuscuz às pressas e comi. coloquei os óculos e liguei o computador. nada resolvido. para me consolar, o sinal da internet caiu. fui dormir.

acordei com a queda do despertador/celular. ele vibra e toca ao mesmo tempo na hora do alarme. levantei espantando sonhos que agora só saberia relatar vagamente apesar de ter sido tão real... quando tento recordar sonhos me dou conta do embaraço que a vida é. melhor deixá-lo preso ao lençol desalinhado sobre a cama.

acordei pensando que dormir é uma arte. por pouco não voltei pra cama, afinal de contas, até onde sei não tenho nenhum compromisso hoje. mas deixa pra lá. estou aqui, em frente a esta tela quadrada, sem óculos, os olhos inquietos que mais lembram o despertador/celular vibrando. parece que de vez em quando uma coisa puxa meu olho esquerdo para o lado.

não me adaptei aos óculos. desde que os adquiri me dei conta que enxergo melhor sem eles. portanto, não vejo a mínima necessidade de usá-los. aliás, quando os olhos lacrimejam eu repenso e coloco. fico ainda mais aéreo, desatento, lento, tento em vão escrever alguma coisa. com os óculos as palavras não fluem. parece que definitivamente perdi o hábito de escrever no caderno, com lápis ou caneta. agora tudo é digitado, digitalizado, formatado...

vou retomar meus apontamentos o mais rápido possível. estes dias escrevendo este diário virtual já me deram a exata noção da coisa: para apaziguar meus olhos inquietos só a fluência de uma página escrita numa folha de papel.