vou quebrar o jejum de varar oito meses sem escrever uma linha sequer neste espaço virtual. vou escrever sobre o que estou sentindo, e espero que ninguém leia estas linhas, sob hipótese alguma. espero que tudo isto fique para sempre no esquecimento. afinal, o que eu sinto só interessa a mim, certo?
errado, Osete... já começaste errado, meu caro... não podes renegar os gostares alheios. neste mundo louco, Osete, os seres que vagam vagamente e sem vagar querem momentos de tranquilidade também, meu velho... e você, com esta paciência gigante, é o ser andrógino mais indicado para certas venturas...
por certo que ninguém sabe o que tu passas para manter o equilíbrio de ser tranquilo, vagaroso, contemplativo, ocioso... por certo que ningém tem tempo de devolver a leveza que tu inventas só para satisfazer os desejos efêmeros de teus mais caros amigos e amigas... por certo que ninguém consegue te agradar, haja vista que tu não és lá muito chegado a agrados, não é Osete?...
tu detestas receber presentes, não é? mas tu adoras dar! não é contraditório não, meu caro Osete? tu és capaz de passar o dia inteiro lembrando uma pessoa solamente pelo fato de esta pessoa estar aniversariando. e, quando fazes anos, tu procuras logo um desvão para se esconder dos felizes aniversários e dos parabéns...
tu és um sujeito ambíguo, tímido até a morte, medroso, solitário, mas tu consegues conquistar as pessoas tão fácil, Osete... e, de súbito, todos se sentem responsáveis por ti. e tu, que pareces ter um coração gigante, és capaz de amar loucamente uma pessoa durante muito tempo. tendo-a sempre por perto, mas incapaz de confessar qualquer sentimento. isto te faz mal, Luís... e tu, mais cedo ou mais tarde, experimentará o gosto amargo de ser assim. tu até já experimentastes. e confessas que, por conta disso, já morrestes ao menos três vezes...
e morrer, Luís, significa sair de cena. correr desesperado pelas sombras da noite, tendo o cuidado de não se esquecer em um recanto convidativo. entregar-se em braços errados, para compensar a frustração que é ser assim. frustração é a palavra mais fiel a isto, Osete... tu és um ser frustrado e, por isso mesmo, fraturado, fragmentado, despedaçado, precipitado...
um dia, Luís, ainda verei teu último pulo da ponte ou do precipício. teu encontro com as encantadas águas da ausência. tu que és sempre ausente, mesmo mergulhado nas situações mais marcantes da vida, e que se alimenta da falta. tu és um ser difuso, Osete...
reconheçamos: difícil entender-te. tu nunca dizes o que quer, tu nunca fazes o que realmente tens vontade. só para não falhar. só para não desagradar. por receio de, ao fazer isto, não manter a perfeição vazia que te recobre. a perfeição de não ser como todos os outros homens. a perfeição de ser fugidio, lírico, doce, suave...
mas tu és, muitas vezes, seco, Osete... como os vinhos que acompanham os banquetes que tu adoras dar às pessoas mais próximas. tua sequidão é desesperadora. tu não respeitas ou mesmo não entendes os sentimentos alheios. tu não respeitas ou não entendes teus próprios sentimentos. tu não sabes dissimular o óbvio. tu queres mergulhar profundamente, mas se tu não sabes ao menos submergir... valerá a pena mesmo viver assim, Osete?...
mais cedo ou mais tarde, tu sairás da vida para ficar na lembrança dos seres esquecidos. e tu a muito tempo achas que este dia está chegando. tu vives o sinal do fim dos dias. e nem assim tomas uma titude mais pró-ativa nesta vida. continuas apanhando diariamente. cada tapa mais forte do que o outro. cada decepção uma nova acepção sobre a vida. tu vives as auguras da segunda geração do romantismo, Osete? tu não superastes aquele sentimento de mal do século? logo tu, que se dizes tão contrário à exaltação do gênio individual?...
às vezes, Osete, eu penso seriamente em te abandonar para sempre, meu caro... eu gosto de ti. quer dizer, fui aprendendo a gostar deste teu jeito. simplesmente porque isto te dá uma aura: tu te tornas único e inimitável. e isto siginifica que tu nunca serás exemplo de nada. quem se mira em você não sabe o risco e o trauma que é ser Osete...
mas, ultimamente, Luís, tu tens atribuído tudo isto ao teu signo, né? tu achas justo esta determinação astrológica? por que não assumes logo sua própria responsabilidade em ser assim, hein Osete? por que não confessas logo as repressões que tu sofrestes em tua terna infância? por que pretendes renegar o que tu mesmo construístes? por quê?...
meu caro, tu não tens jeito não viu... de uma vez por todas: desisto! desisto de ti. e pretendo nunca mais retornar a este espaço. sobretudo para falar sobre você. tem muita coisa sobre ti, meu velho: tem o peso de uma existência ingrata...
desejo-te uma vida curta: de menos sofrimento e mais divagação...
um grande abraço,
...
sábado, 29 de agosto de 2009
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