segunda-feira, 30 de junho de 2008

toda ausência é atrevida...

as pessoas que acompanham os textos postados neste blog devem ter percebido que já faz mais de uma semana que eu não escrevo nada por aqui. verdade seja dita: desde o dia 18 de junho eu não abro este endereço eletrônico. ele não é nem de longe meu lugar preferido nesta rede infinita e assustadora chamada internet. só abro quando me sinto na obrigação de escrever, sobretudo por respeito ao leitor.

nesta minha longamente curta ausência me ocupei de outras coisas. principalmente de pré-ocupações. andei abrindo outros links, encarando outras palavras, escutando outros discursos, peregrinando por outros pastos. a ponta de meus dedos acompanharam sempre meus fios de cabelo nesta lida diária. por diversas vezes tive de me recolher ao silêncio mais perturbador possível para reconhecer que quase sempre não tenho nada a dizer deveras e qualquer pergunta a este respeito não passa de uma aporrinhação.

por isso, prefiro muito mais observar a ser observado, ler a escrever, pensar a fazer, sentar a correr, contemplar a refletir... não sou oswald para fazer telhados, mas às vezes sinto certa necessidade de jogar um cobertor sobre os pensamentos. e deixá-los em suspensão perpétua.

hoje estive na fila do restaurante popular, tentando conciliar a espera com a leitura da piauí do mês que se avizinha. por sinal, que prontidão! eu abri a revista e logo percebi a presença de um rapaz mais exaltado, quebrando o silêncio intransponível da fila absorta das barrigas vazias. foi ele se aproximar e um cheiro forte de cachaça se espalhar. tentou me oferecer um caderninho, do qual nem quis tomar conhecimento. o rapaz que estava em minha frente terminou aceitando. e firmou o compromisso tácito de alimentar a fome de diálogo do estado alterado de consciência.

fiquei folheando a revista, à procura de um texto que coubesse nos poucos minutos de espera. o rapaz embriagado sussurrou algo que me identificava com um jornalista e emendou: "você nem sabe o que está lendo...". confirmei balançando a cabeça e com um sorriso dividido entre a ironia e a ausência de graça. fazer o quê? vai ver ele tem razão...

a literatura da oralidade cuspida no meio da rua (ou no meio de uma fila) é muito mais rica do que boa parte dos romances distribuídos em pratos rasos nos espaços de assimilação das informações. acredito muito mais numa frase assim, dita ao acaso, do que em muitas leituras imbuídas de verdades a priori inquebrantáveis. mesmo que, para tanto, muitas consciências tenham de se ausentar por um tempo indeterminado.

até o retorno, tudo pode estar diferente. folhas espalhadas no chão, deslocamentos, gavetas reviradas, transformações, lacunas e, principalmente, ausências. voltei para ficar!

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