quarta-feira, 4 de junho de 2008

carta de apresentação

fui à lixeira e não encontrei nenhuma foto que pudesse ilustrar o que eu pensei em escrever como carta de apresentação. na verdade, eu queria que alguma foto servisse de ensejo para expressar esta coisa que me levou a iniciar a escrita deste blog. sempre me disseram que uma imagem vale mais do que mil palavras, e eu sou dado a economizar palavras. adoro colocá-las embaixo do colchão ou enterrá-las no fundo do quintal, num lugar que só eu tenha acesso.

guardo palavras e, por isso, guardo silêncios, gestos, expressões, arroubos. roubo todo dia de mim a espontaneirade que nunca tive, nunca terei. sou avesso a mudanças e permanências, e me dou bem com isto. quando, numa madrugada insone, ouço a porta do banheiro simplesmente abri pela ação da gravidade logo retomo uma série de medos que povoaram minha infância. desta maneira, nunca estou afastado daquele ser autêntico pela própria natureza, que ouvia sem se dar conta: "aproveite enquanto você não tem com o que se preocupar".

hoje imerso em pré-ocupações tento dar conta de realidades paralelas. de compromissos firmados sob a égide da cruz e da espada, em busca da (sobre)vivência diária, que não deixa de ser uma morte cotidiana também. hoje cheguei duas horas atrasado para um compromisso. o cansaço mais uma vez venceu a necessidade. mesmo assim, levantei sem graça, escovei os dentes, lavei o rosto e saí correndo. ao chegar, ouvi uma tremenda bronca acompanhada de um aviso: "já tinha ido à procura da pessoa responsável por te tirar do projeto de pesquisa. mas não encontrei ele".

esqueci de dizer: "obrigado pela compreensão. por ter procurado entender meus motivos de não ter cumprido a responsabilidade de chegar no horário combinado, de não ter acordado com o despertador, não ter ido dormir cedo, não ter descansado no final de semana, não ter um mês tão cansativo, um ano repleto de afazeres... obrigado mesmo por, pelo menos, ter tido tempo de escutar tudo isto". agora é tarde. agora já é quase uma e meia da manhã. mais uma vez estou indo dormir tarde, por sorte não tenho compromisso extra-casa amanhã de manhã. só comigo mesmo. redigir um texto, ler algumas coisas, preparar almoço.

à tarde, não posso esquecer: tenho encontro marcado com o compreensivo orientador daí de cima. ele me fez repetir o horário: quatro e meia. levarei minha paciência renovada por mais uma noite de sono, depois de um dia cansativo. anseio encontrar uma imagem que expresse esta coisa que atravessa a garganta e chega à alma com uma facilidade invejável.

mas o próprio texto não quis se apresentar, dizer de onde vem e para onde vai. termina preso a uma angústia pontual, que já se tornou uma pré-ocupação. como o medo de ver assombração em qualquer fresta. o jeito é fazer festa sem alarde: o blog se inicia!

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