eu não sou poeta. nunca fui. não nasci para poetizar a banalidade. não nasci para tornar concreto o que nunca deixará de ser abstrato, nem para abstrair do concreto a essência mesma do abstrato. não sou poeta de alma, palavra, gesto, olhar, gentileza...
só guardo este silêncio impostor, evasivo, infecto-contagioso. aí, todos pensam, é poeta. como se para ser poeta fosse preciso, em algum momento, se resguardar da palavra verbalizada à esmo, mastigada na coloquialidade das relações sociais. triste engano dos ledos da vida.
para ser poeta é preciso mais, bem mais... como as "flores do mais", de ana cristina césar. e, devagar, ir, escrevendo, a, primeira, letra, nas, imediações, construídas, pelos, furacões... não, não foi dado a todo ser humano esta súbita herança de ser poeta, de pedir mais, sempre mais.
mas andam me apontando pelas esquinas, como se eu tivesse, em algum lugar, um baú repleto de poesias. um arcabouço, calabouço, calo a boca e meto a mão no bolso. saio escondido pelos reflexos das paredes cálidas e fico jogado numa timidez crônica, balbuciando entredentes um monte de besteiras.
joão, manoel, cassiano, carlos, adélia, vinícius, patativa, esta poesia nossa de cada dia é repleta destas referências. de anjos tortos e garotas de ipanema. e eu sempre sigo afastado disto tudo, me limitando a ouvir pelos cantos recitais, interpretações, gritos escandalosos, como se poesia realmente fosse catarse. como se as palavras de walt whiltman fossem parte de um processo terapêutico.
tudo isto me parece sempre muito exagerado. a poesia, para mim, não deveria nunca ser mais elevada do que o canto de um passarinho nas primeiras horas da manhã. sem alardes, ir anunciando a chegada dos primeiros raios do sol entre as frestas do concreto, na vagareza mesma de ser um furacão.
continuo não sendo poeta.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
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