quinta-feira, 3 de julho de 2008

o dia em que fui atropelado por uma moto...

agora, tentando me lembrar as cenas da moto entrando na lateral da bicicleta e me jogando num lugar incerto, só consigo ouvir um grito seco misturado com o som estridente de ferros se encontrando. foi o grito da morte no meio da rua.

eu saí de casa sem pressa. pouco depois das duas horas da tarde. a idéia era que três horas eu tocasse a campainha da casa de minha professora. uma colega quase clamou minha presença neste encontro. antes de abri o portão, certifiquei-me de que a câmera fotográfica estava em minha bolsa.

é que no meio do caminho há uma ponte. há uma ponte no meio do caminho. e pessoas trabalhando na duplicação desta ponte. e eu sou meio fissurado em fotografar estas coisas assim que as pessoas nem costumam olhar: homens trabalhando, um buraco no banheiro da barca, alguém dormindo na calçada depois do almoço e por aí vai.

e por ali eu fui indo. subi as escadas de concreto carregando a bicicleta e o peso de um sol acolhedor. logo vi uma cena que daria uma boa fotografia. mas preferi seguir adiante. tinha algumas pessoas pintando a balaustrada que dificulta (mas nem tanto assim) as pessoas que desejam se jogar da ponte. saquei minha máquina e tirei umas fotos. segui...

na altura do arco, dei um tempo. trabalhadores pintavam lá em cima. fiquei fotografando até chegar à conclusão de que poderia ser indelicado com minha colega e minha professora. então peguei a carona de um bicicleteiro. ele foi abrindo caminhos. para não carregar a bicicleta, resolvi só descer na rampa.

com pouco tempo estava solto na rua, atravessando na faixa a primeira sinaleira. como se fosse um pedestre de bicicleta. passei rápido por um congestionamento provocado pela ausência de lugar para estacionar na rua. e segui pedalando até chegar na encruzilhada, onde cinco sinais diferentes tentam ordenar o trânsito.

não sei ao certo se eu cheguei a parar minha bicicleta. mas observei que um sinal do outro lado da faixa de motoristas estava fechado. o mais próximo da faixa. tanto assim que uma pequena fila de carros se posicionava à espera da luz verde, que acesa logo ao lado (são duas faixas diferentes num mesmo lado) apontava trinta e poucos segundos. foi a última coisa que vi quando pedalei para o terno (e eterno) encontro com uma moto, que vinha reta e decidida a seguir pela avenida.

nem sei onde o lado esquerdo do meu rosto bateu. se foi na moto, no capacete, no chão, na bicicleta. não sei também se eu cheguei a cair de se esparramar no chão como um pacote de arroz. acho que sim. mas devo ter levantado tão rápido que nem percebi. só vi o rapaz da moto contrariado com minha displicência e levantando do asfalto para não atrapalhar o tráfego. pegou a moto e se encostou no meio fio. peguei minha bicicleta e fiquei indeciso, se ía embora de qualquer jeito ou se me encostava ao meio fio para tentar um diálogo com o rapaz. optei meio trêmulo de vergonha pela segunda opção.

em volta, todo mundo estava preocupado em saber se eu estava bem. sim, tentei explicar. como assim? tentaram me dizer. você não teve nada? quem vê de fora tem outra perspectiva. algumas pessoas acharam que foi um acidente digno de samu. mas eu levantei tão determinado a resolver a pendenga logo e me safar daquela situação constrangedora que só fizeram me mostrar um espelho. venha vê seu rosto, parece que tem uma veia próximo a seu olho...

encostei a bicicleta no meio fio e entrei numa loja de bijoteria, suponho. só amanhã para saber o que se vende lá. realmente, tem um hematoma crescendo em meu rosto. vá para a emergência do semec, alguém disse. fiquei surpreso e receoso ao mesmo tempo. já tive coisa pior e me tratei em casa mesmo, com gelo e gelou. dei meu telefone ao rapaz, que até agora não sei o nome. mais tarde ele me encontraria na universidade já portando o orçamento do conserto da moto: 121 reais e eu daria a ele, para adiantar, os 37 reais que residiam em minha bolsa.

fui pedalando para o semec. o sol queimando meu rosto só fazia aumentar minha angústia, que misturada à dor dava uma vontade de voltar pra casa. aqui nós não tiramos raio x, você tem de ir para a pró-matre ou para a santa clara, mas é melhor a pró-matre. lá fui eu para a pró-matre. já cheguei pedindo um raio x. o médico imediatamente atendeu meu pedido e me encaminhou. passei por umas cinco mãos (até injeção tomei) antes de retornar à cadeira onde o médico atende todos os pacientes com suas letras de médico. você não teve nenhuma fratura. só um trauma mesmo.

realmente, estou traumatizado com motos e luzes verdes.

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